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Em novembro de 2018, o iFood recebeu US$ 500 milhões no maior aporte já feito em uma empresa de tecnologia da América Latina

07 de agosto de 2026·Redação YOOFY
Escritório de tecnologia movimentado — ilustração do ambiente das empresas de delivery no fim dos anos 2010.

Escritório de tecnologia movimentado — ilustração do ambiente das empresas de delivery no fim dos anos 2010.

No dia 13 de novembro de 2018, o iFood anunciou que havia recebido US$ 500 milhões — cerca de R$ 1,87 bilhão pela cotação da época. Era, até então, o maior investimento privado já feito em uma empresa de tecnologia da América Latina. O aplicativo tinha pouco mais de sete anos de vida.

Sete anos depois daquele anúncio, o mercado que ele disputava não existe mais na forma em que existia. Esta é a história de como um cheque redesenhou o delivery brasileiro.

Em resumo

A tarde de 13 de novembro de 2018

O anúncio veio pela Movile, empresa brasileira que controlava o iFood. A rodada reuniu a própria Movile, a sul-africana Naspers — então uma das maiores investidoras de tecnologia do mundo — e a Innova. Não era o primeiro cheque do ano: meses antes, a Movile e a britânica Just Eat já haviam colocado US$ 100 milhões na empresa.

A diferença de escala entre os dois aportes conta a história sozinha. Em poucos meses, o mesmo negócio passou a valer cinco vezes mais em disposição de capital. Alguma coisa havia mudado na leitura que os investidores faziam do delivery brasileiro.

"Seremos uma empresa brasileira de classe global. Queremos liderar o mercado de food delivery", disse na ocasião Fabricio Bloisi, presidente da Movile. Não era retórica de comunicado: o dinheiro tinha destino declarado.

O iFood que recebeu o cheque

Vale registrar o tamanho da empresa naquele momento, porque é o que dá dimensão ao que veio depois. Em outubro de 2018, o mês anterior ao anúncio, o iFood havia processado 10,8 milhões de pedidos no Brasil. Tinha 50 mil restaurantes cadastrados na plataforma.

Carlos Moyses, então presidente do iFood, declarou a meta: triplicar o número de restaurantes em um ano e meio. Era um objetivo agressivo para uma base que já era a maior do país — e explica por que o dinheiro precisava ser tanto.

Os cinco pilares do dinheiro

O aporte não foi anunciado como reserva de caixa. A empresa listou cinco frentes para os US$ 500 milhões: inteligência artificial, logística, promoções, pessoas e fusões e aquisições.

A lista merece atenção porque é uma fotografia do que se entendia por vantagem competitiva em delivery no fim de 2018. Inteligência artificial e logística tratam de eficiência — prever demanda, rotear entregador, reduzir tempo de entrega. Promoções são a linha mais direta: subsídio ao consumidor, o combustível da disputa por participação de mercado. Pessoas e aquisições tratam de velocidade: contratar e comprar sai mais rápido do que construir.

Em outras palavras, quatro dos cinco pilares eram formas diferentes de acelerar. Só um deles, a inteligência artificial, era aposta de longo prazo.

A guerra que o dinheiro financiou

O contexto de 2018 era de disputa aberta. O iFood não corria sozinho: dividia o mercado brasileiro com o Uber Eats, braço de comida da Uber, e com a colombiana Rappi, ambos com capital estrangeiro e apetite por participação.

Era exatamente o tipo de mercado que se decide no caixa. Promoção sustentada, taxa de entrega subsidiada e comissão apertada custam dinheiro todos os dias — e vence quem aguenta pagar por mais tempo. Foi essa a partida que os US$ 500 milhões compraram o direito de jogar.

Março de 2022: o dia em que o Uber Eats desistiu

Em 6 de janeiro de 2022, a Uber anunciou que encerraria o delivery de restaurantes no Brasil. A operação foi desligada em 7 de março daquele ano. A empresa manteve entregas de supermercado, pela Cornershop, e os serviços Uber Flash e Uber Direct — mas saiu da disputa por restaurantes.

Os números da época explicam a decisão. Segundo levantamento publicado pelo jornal Valor Econômico, o iFood detinha mais de 80% do mercado de delivery de restaurantes no Brasil. O Uber Eats ficava com cerca de 10%, e a Rappi com aproximadamente 5%.

Uma das maiores empresas de tecnologia do mundo desistiu de um mercado do tamanho do Brasil por não conseguir competir com uma empresa brasileira. Três anos e quatro meses separam o anúncio do aporte dessa saída.

Por que esse cheque virou um marco

O aporte de 2018 costuma ser lembrado pelo valor, e o valor de fato era inédito na região. Mas o que faz dele um marco é outra coisa: foi a demonstração, em um mercado grande e visível, de que capital paciente aplicado com objetivo declarado decide disputas de plataforma.

Não houve virada tecnológica no delivery entre 2018 e 2022. Houve resistência financeira. O aplicativo que aguentou subsidiar por mais tempo ficou com o mercado — e o segundo colocado, apesar do tamanho global, foi embora.

É por isso que a data importa. Contada como notícia de hoje, essa história vira um comunicado de investimento a mais. Contada a partir de 13 de novembro de 2018, com o desfecho já conhecido, ela mostra o que um cheque é capaz de comprar quando o mercado ainda está indeciso.

Fontes
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