A inteligência artificial surgiu como campo científico em 1956, num seminário de verão no Dartmouth College, nos Estados Unidos, quando John McCarthy cunhou o termo. A pergunta fundadora veio antes, em 1950, no artigo de Alan Turing sobre máquinas capazes de pensar. Desde então, o campo alternou entusiasmo e “invernos” de descrédito, até que redes neurais, dados em massa e o transformer produziram a IA generativa de conversa.
Em resumo
- A pergunta “máquinas podem pensar?” foi formalizada por Alan Turing em 1950; o nome “inteligência artificial” nasceu em 1956, na conferência de Dartmouth organizada por John McCarthy.
- Não houve um único criador: a IA é obra coletiva de matemáticos, engenheiros e cientistas da computação, financiada em grande parte por governos durante a Guerra Fria.
- A IA generativa é a fase mais recente: nasceu da arquitetura transformer, publicada por pesquisadores do Google em 2017, e chegou ao público com o ChatGPT, da OpenAI, em 2022.
Tudo começou com uma pergunta de Turing, não com uma máquina
Em 1950, o matemático britânico Alan Turing publicou o artigo “Computing Machinery and Intelligence” na revista Mind. Em vez de definir inteligência, ele propôs um teste prático: se uma pessoa conversando por texto não consegue distinguir a máquina de um humano, a máquina pode ser considerada inteligente. É o chamado Teste de Turing.
A proposta era ousada porque os computadores da época ocupavam salas inteiras e serviam para cálculos militares e científicos. Turing, que havia trabalhado na quebra de códigos alemães durante a Segunda Guerra, imaginava máquinas que aprendessem como crianças, por instrução e experiência, e não apenas por programação explícita.
Turing morreu em 1954, antes de ver o campo nascer com nome próprio. Mas a pergunta dele fixou o padrão de julgamento que ainda usamos: a IA é avaliada pelo comportamento que produz, não pelo que acontece dentro dela. Segundo a Stanford Encyclopedia of Philosophy, esse artigo abre o debate moderno sobre inteligência de máquinas.
O nome nasceu numa reunião de verão em Dartmouth
Em 1956, o matemático John McCarthy organizou, com Marvin Minsky, Nathaniel Rochester e Claude Shannon, um seminário de verão no Dartmouth College, em New Hampshire. A proposta de financiamento, escrita no ano anterior, usava pela primeira vez a expressão “artificial intelligence” para nomear o estudo de máquinas que simulam aspectos da inteligência humana.
A proposta, escrita em 1955 e disponível publicamente, previa que um grupo de dez pesquisadores resolveria parte significativa do problema em um verão. A estimativa se mostrou otimista em décadas, mas o encontro cumpriu o essencial: reuniu as pessoas que fundariam os primeiros laboratórios de IA no MIT, em Stanford e em Carnegie Mellon.
Por isso, quando alguém pergunta “em que ano a inteligência artificial surgiu”, a resposta padrão é 1956. Quando pergunta “quem criou”, a resposta honesta é que ninguém criou sozinho: McCarthy deu o nome, Turing deu a pergunta, e dezenas de pesquisadores construíram o restante ao longo de décadas.
As primeiras décadas prometeram demais e entregaram invernos
Os anos seguintes trouxeram programas que jogavam damas, provavam teoremas e conversavam de forma rudimentar, como o ELIZA, criado por Joseph Weizenbaum no MIT em 1966. Frank Rosenblatt apresentou em 1958 o perceptron, um modelo matemático inspirado no neurônio, que é o ancestral direto das redes neurais modernas.
O entusiasmo esbarrou na falta de poder computacional e de dados. No Reino Unido, o relatório Lighthill, de 1973, concluiu que a IA não havia cumprido suas promessas, e o financiamento público encolheu. O período que se seguiu ficou conhecido como o primeiro inverno da IA, com verbas cortadas e laboratórios reduzidos.
Um segundo ciclo veio com os sistemas especialistas dos anos 1980, programas que codificavam regras de médicos e engenheiros, e com o projeto japonês de computadores de quinta geração. Quando esses sistemas se mostraram caros e frágeis, chegou o segundo inverno, no fim da década. A linha do tempo resumida:
- 1950: Turing publica o artigo que propõe o teste de máquinas pensantes.
- 1956: conferência de Dartmouth cunha o termo inteligência artificial.
- 1973: relatório Lighthill abre o primeiro inverno da IA.
- 1997: o Deep Blue, da IBM, vence o campeão mundial de xadrez Garry Kasparov.
- 2012: a rede AlexNet vence a competição ImageNet e inaugura a era do aprendizado profundo.
- 2017: pesquisadores do Google publicam o transformer, base dos modelos de linguagem.
- 2022: a OpenAI lança o ChatGPT e leva a IA generativa ao grande público.
Redes neurais voltaram quando dados e placas de vídeo chegaram
A virada dos anos 2010 combinou três ingredientes que faltavam desde Rosenblatt: algoritmos de treinamento maduros, quantidades enormes de dados digitalizados pela internet e placas gráficas, criadas para jogos, capazes de fazer milhões de multiplicações em paralelo. A ideia antiga finalmente tinha combustível.
O ponto de inflexão foi 2012, quando a rede AlexNet, de Alex Krizhevsky, Ilya Sutskever e Geoffrey Hinton, venceu a competição de reconhecimento de imagens ImageNet por margem larga. De acordo com o artigo dos autores, apresentado na conferência NeurIPS, a taxa de erro caiu de forma expressiva em relação ao segundo colocado, e a indústria passou a apostar em aprendizado profundo.
Na prática, isso mudou o que a IA fazia no dia a dia: reconhecimento de rosto em fotos, tradução automática utilizável, assistentes de voz e recomendação em streaming e marketplace. Em 2016, o AlphaGo, da DeepMind, venceu o campeão de Go Lee Sedol.
A IA generativa nasceu do transformer e explodiu com o ChatGPT
Em 2017, pesquisadores do Google publicaram o artigo “Attention Is All You Need”, que apresentou a arquitetura transformer. Ela permitia processar sequências de texto em paralelo e capturar relações entre palavras distantes, o que tornou viável treinar modelos de linguagem com bilhões de parâmetros em volumes gigantescos de texto.
Sobre essa base, a OpenAI construiu a família GPT e o Google, o BERT. Cada geração foi maior que a anterior, e a qualidade do texto gerado passou de curiosidade a ferramenta. Em novembro de 2022, a OpenAI lançou o ChatGPT, uma interface de conversa sobre esses modelos, e a adoção foi rápida como poucas vezes se viu em um produto de consumo.
A IA generativa mudou a relação das pessoas com a tecnologia porque dispensou o programador: qualquer um passou a instruir a máquina em português. Ferramentas de imagem, áudio e código seguiram o mesmo caminho, e empresas como Google, Microsoft, Meta e Anthropic passaram a disputar o mesmo espaço com seus próprios modelos.
Governos e guerra financiaram a IA como ferramenta estratégica
A afirmação de que a IA surgiu como ferramenta estratégica tem fundamento histórico. Nos Estados Unidos, a agência de pesquisa do Departamento de Defesa, a DARPA, financiou os laboratórios de IA do MIT, de Stanford e de Carnegie Mellon a partir dos anos 1960, no contexto da Guerra Fria e da corrida tecnológica com a União Soviética.
O próprio Turing trabalhou na criptoanálise de guerra, e os primeiros computadores eletrônicos nasceram para calcular trajetórias balísticas e quebrar códigos. O Japão, por sua vez, lançou em 1982 o projeto de computadores de quinta geração como política industrial, o que levou Estados Unidos e Europa a reagirem com programas próprios.
Esse padrão se repete: a pesquisa básica foi paga pelo Estado por décadas, e a comercialização veio depois, pela iniciativa privada. Isso explica por que governos voltaram a tratar a IA como ativo estratégico e a financiar pesquisa própria.
No Brasil, a IA chegou pela universidade e virou política pública
A pesquisa brasileira em inteligência artificial se organizou a partir dos anos 1980, em programas de pós-graduação de universidades como USP, Unicamp, UFRGS, UFPE e PUC-Rio. A Sociedade Brasileira de Computação passou a reunir a comunidade em eventos dedicados ao tema, que seguem ativos e reúnem pesquisadores de todo o país.
Na indústria, a IA entrou pelo setor financeiro, com modelos de crédito e antifraude em bancos e birôs, e depois pelo varejo e pelas telecomunicações. Fintechs e empresas de tecnologia adotaram aprendizado de máquina para recomendação, cobrança e atendimento antes que o termo virasse assunto de grande público.
No plano governamental, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação publicou em 2021 a Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial, a EBIA, com diretrizes para pesquisa, educação e uso ético. O Congresso passou a discutir um marco legal para a IA, e a LGPD já trata de decisões automatizadas desde antes da onda generativa.
A IA nasceu na Terceira Revolução Industrial e move a Quarta
A divisão mais usada em escolas e provas conta quatro revoluções industriais: a do vapor, a da eletricidade e da produção em massa, a da eletrônica e da informática, e a da conexão entre mundo físico e digital. A inteligência artificial surgiu na terceira, junto com o computador e a internet.
O termo Quarta Revolução Industrial foi popularizado por Klaus Schwab, fundador do Fórum Econômico Mundial, em 2016. Nessa leitura, a IA deixa de ser uma tecnologia entre outras e passa a ser o motor que conecta robótica, internet das coisas, biotecnologia e automação de decisões.
Para quem estuda para prova ou concurso, a resposta segura é: a IA surgiu na Terceira Revolução Industrial, em meados do século XX, e é considerada uma das tecnologias centrais da Quarta. Vale conferir o material da própria banca, porque algumas adotam divisões diferentes das revoluções.
O próximo passo para quem quer ir além da linha do tempo é ler as fontes primárias, curtas e gratuitas: o artigo de Turing de 1950 e a proposta de Dartmouth de 1955. Todo chatbot que você usa descende diretamente daquela pergunta.